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Agricultura irrigada avança com força no Brasil e move mercado de novas tecnologias
12.08.2021

Por Everardo Mantovani e Lessandro Coll

Crescimento em área tem sido acompanhado também pelo uso de sistemas mais modernos e eficientes, que se expandem do Cerrado aos Pampas

A agricultura irrigada avança a passos largos no Brasil. De meados dos anos 1980, quando cobria 1,5 milhão de hectares no país, passou a 5,1Mha em 2014 e a 8,4 Mha em 2020. Mas tão importante quanto multiplicar quase seis vezes a área irrigada, foi garantir a evolução dos sistemas empregados a campo, com maior eficiência no uso da água, energia, mão de obra, automação e operacionalização.

Sistemas pressurizados de irrigação por aspersão convencional e mecanizados, de irrigação localizada por gotejamento e microaspersão, ocupavam menos de 10% do total irrigado e agora alcançam 65%, com destaque para o sistema de pivô central que, nos últimos cinco anos responde por 46% da área irrigada no Brasil.

E a situação atual da agricultura irrigada no país é de grande potencial de crescimento. Estudos da Esalq-ANA-MDR indicam um potencial de crescimento de até 55 Mha em áreas de intensificação (sobre agricultura de sequeiro) e de ampliação (sobre áreas de pastagem), sendo 13,69 Mha destes de potencial efetivo a curto e médio prazo.

Isso é possível porque ampliamos nossa capacidade de implantar de forma sustentável novas áreas irrigadas, multiplicaram-se os grandes projetos em diversas regiões e a eficiência do sistema de produção irrigada tornou-se rotina no agronegócio brasileiro. Também aumentamos em quantidade e qualidade a nossa capacidade industrial e de importação de sistemas de irrigação convencionais, mecanizados, localizados e acessórios.

Sem falar na área comercial e de serviços, que vêm a cada dia se profissionalizando no planejamento, implantação e operação de áreas irrigadas nas mais diferentes condições edafoclimáticas do Brasil. Por fim, evoluímos muito no conhecimento e formação técnica dos profissionais que atuam no setor, tanto na iniciativa privada como na pública.

Dentro deste panorama de crescimento do passado, presente e futuro é importante ter em conta esse desenvolvimento nos sete principais biomas brasileiros (figura 1). Neste artigo, vamos nos debruçar sobre dois deles: o bioma Cerrado, que se estende da parte central ao Norte e Nordeste do Brasil e que há anos é onde mais se expande a irrigação no Brasil, e o Pampa, região ao Sul, com alto potencial de crescimento.

Pioneirismo do Cerrado na irrigação

Não à toa o Cerrado é um dos principais polos da irrigação no Brasil. Segundo maior bioma do país, ele ocupa uma área de 2 Mkm2 (200 Mha), equivalente a 24% do território nacional e tem clima tropical, com as estações seca e chuvosa bem definidas e presença de veranicos. Os solos, por sua vez, são profundos, bem drenados, com baixa fertilidade natural e acidez acentuada.

A temperatura média anual varia entre 21,3 e 27,2 ºC e o relevo oscila entre o plano e suavemente ondulado, que favorece a agricultura mecanizada e o uso de sistemas de irrigação do tipo pivô central. Outros sistemas de irrigação também estão presentes, como o gotejamento, principalmente nas culturas do café, batata, cana, olerícolas e frutíferas. E a aspersão convencional, que se estende por áreas pequenas e médias, com pastagem, milho, feijão, batata e cana. Por último, o carretel autopropelido é muito usado na fertirrigação com vinhaça na cultura da cana.

Com tantas condições edafo-climáticas e topográficas que favorecem a adoção da agricultura irrigada, a região tem colhido bons frutos ao longo dos anos. De 1980 para 2020, a área plantada no bioma passou de 4,5Mha para 18Mha, enquanto a produção saltou de 5,2 Mt toneladas de grãos para 100 Mt — um crescimento de quatro e vinte vezes, respectivamente.

Essa espetacular ampliação na produção e produtividade faz com que as áreas de Cerrado respondam por expressivos percentuais da produção agropecuária brasileira: de 50-60% do total de carne bovina produzida no país, 50-60% da soja, 30-40% do milho, 95-98% do algodão, 45-47% da cana-de-açúcar, 40-45% do feijão, 85-90% do sorgo e 25-30% do café.

Protagonista na produção nacional de alimentos, fibras e agroenergia, o bioma é destaque ainda no uso de sistemas de produção sustentáveis, como o plantio direto, que é aplicado em cerca de 60% da área cultivada, e o sistema de integração lavoura, pecuária e floresta (ILPF).

O casamento do Cerrado com a irrigação

Em todo esse desenvolvimento da região do Cerrado, a agricultura irrigada tem um espaço especial, sendo a grande fronteira da irrigação por aspersão mecanizada do tipo pivô central. Afinal, foi no bioma que essa tecnologia encontrou uma grande área de expansão, graças ao clima, relevo, disponibilidade hídrica e tipos de solo, que lhe permitem ocupar extensas áreas de milho, soja, algodão, feijão, pastagem, café, batata, cana e, nos últimos anos, chegar até a lavouras de trigo.

Devido à sua alta facilidade operacional, de automação, eficiência de aplicação de água, durabilidade e capacidade de irrigar grandes áreas, o pivô central ocupou o espaço que tem hoje em toda região do Cerrado e, em especial, nas áreas do Matopiba, com destaque para o Oeste da Bahia e áreas complementares nos Estados do Maranhão, Tocantins e Piauí. Em Minas Gerais, está presente no Noroeste, Norte e Triângulo Mineiro. Em Goiás, chega a Rio Verde e Cristalina, enquanto em Mato Grosso predomina mais ao sul.

Conforme a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o sistema de pivô central ocupa 1,5 Mha no Brasil e, pela figura, fica nítida sua concentração no Cerrado brasileiro — onde encontrou terreno fértil para crescer e demonstrar todo seu potencial, que agora serve de exemplo para produtores de outros biomas, como os Pampas.

A irrigação nos Pampas

O Pampa gaúcho possui uma grande biodiversidade e abrange a maior parte do Rio Grande do Sul (RS), ocupando cerca de 63% do território do Estado e, ainda, porções territoriais nos países vizinhos, Uruguai e Argentina. Como o significado do próprio nome, o Pampa se caracteriza por ser uma região plana, com extensas áreas de solos de várzea, onde predomina a produção do arroz e carnes.

O RS é o principal Estado produtor de arroz do Brasil, sendo responsável por cerca de 60% da produção orizícola nacional. As áreas de produção de arroz são tradicionalmente irrigadas por inundação, um sistema de baixa eficiência e, que devido às perdas por evaporação da superfície solo-água e pelo movimento descendente da água no interior do solo (percolação), apresenta uma elevada demanda hídrica.

Considerando o cenário mundial atual, que se caracteriza pela crescente demanda por água e energia, bem como a preocupação com os impactos ambientais associados aos diversos processos produtivos, especialmente no agronegócio, a viabilidade econômica e a própria sustentabilidade dos sistemas de irrigação ficam na dependência do uso mais eficiente dos recursos hídricos e energéticos disponíveis.

Tecnologias emergentes nos Pampas

Com a necessidade da utilização de técnicas para otimizar o consumo de água na agricultura, a utilização de sistemas de irrigação por aspersão (pivô central e lateral móvel) se apresenta como uma alternativa para o cultivo do arroz na região Sul do Brasil, principalmente em áreas onduladas, com maior declividade e menor disponibilidade hídrica.

E as vantagens não param por aí. Utilizar a irrigação por aspersão na cultura do arroz permite a adoção do plantio direto e sistema de cultivo com rotação de culturas como soja e milho, práticas que são seriamente limitadas na irrigação por inundação devido ao uso de áreas de baixada naturalmente mais úmidas. A irrigação por aspersão permite ainda a implementação do sistema de integração lavoura-pecuária, bem como a utilização da prática de fertirrigação, e, por não utilizar taipas (que mantêm a água dentro dos tabuleiros de arroz), facilita operações mecanizadas de semeadura e colheita.

Quando falamos de irrigação no Brasil, podemos dizer que hoje os produtores contam com as tecnologias de mais alto nível disponíveis no mundo. A exemplo dos sistemas inteligentes de irrigação capazes de ser acionados e acompanhados por smartphones, de armazenar dados e informações na nuvem, nortear o manejo da irrigação de forma remota e identificar pragas e outros fatores redutores da produtividade nas lavouras.

O grande desafio para o desenvolvimento da agricultura irrigada nas diferentes regiões brasileiras é, na verdade, a aplicação das tecnologias de diferentes áreas do conhecimento para extrair a máxima produtividade e rentabilidade das culturas agrícolas, manejando de forma sustentável a água e a energia nas lavouras para se obter a máxima eficiência do sistema de irrigação.

Com isso em vista, a expectativa é que, num futuro próximo, as empresas deixem de ser apenas fabricantes de peças e equipamentos de irrigação para serem impulsionadoras de tecnologias para a agricultura irrigada. E a tecnologia vai muito além da venda de equipamentos, ela deve estar embarcada no pacote de serviços e soluções oferecido ao produtor rural.

Lessandro Coll é Engenheiro Agrícola pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Mestre e Doutor em Engenharia Agrícola pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Professor do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDTec/UFPel) desde 2011, com atuação no Programa de Pós-Graduação em Recursos Hídricos (PPGRH/UFPel) nas áreas de Hidráulica, Irrigação e Drenagem, coordenando projetos de pesquisa financiados pelo CNPq.

Membro das sociedades científicas American Society of Agricultural and Biological Engineering (ASABE – EUA), Sociedade Brasileira de Engenharia Agrícola (SBEA – Brasil) e Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (ABID – Brasil). Experiência na área de Recursos Hídricos, atuando principalmente em engenharia e manejo de irrigação, avaliações hidráulicas e energéticas de estações de bombeamento para irrigação.

Everardo Mantovani é Engenheiro Agrícola, mestre em Irrigação pela UFV e doutor em Agronomia/Manejo da Irrigação pela Universidade de Córdoba, Espanha. Professor da UFV desde 1983 e professor titular em 1998, sendo atualmente Professor Titular Sênior do DEA-UFV. Coordenou diversos projetos financiados pelo CNPq, FAPEMIG, BNB, EMBRAPA, foi bolsista do CNPq, foi pesquisador e coordenador do Núcleo de Cafeicultura Irrigada – P.N.P&D. do Café – Embrapa Café.

Coordena o programa de pesquisa sobre disponibilidade de recursos hídricos no Oeste da BA em andamento (2017 a 2021) e do Sul do MT em fase de implantação. Criou e coordenou por 20 anos o GESAI (Grupo de Estudos e Soluções para Agricultura Irrigada) – DEA/UFV. Em 2008 criou a empresa Irriplus Tecnologia e Treinamento Ltda dentro da Incubadora de Empresas Tecnológicas da UFV. É o idealizador e criador da empresa IRRIGER em 2005 de Manejo da Irrigação, sendo hoje empresa do grupo Valmont, que adotou o sistema como plataforma mundial.

Fonte: https://www.agtechgarage.news/agricultura-irrigada-avanca-com-forca-no-brasil-e-move-mercado-de-novas-tecnologias/

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