Passado maio, quando provavelmente vimos o melhor momento de preço do ano para boa parte do Feijão-carioca, junho começa com outro tipo de jogo.
Impulsionado pela escassez de Feijão nota 8 ou superior, o Feijão-carioca acumulou uma alta estimada entre 18% e 22% ao longo de maio. Foi o mês em que quem tinha produto de qualidade conseguiu capturar uma valorização importante, especialmente porque o mercado ficou curto exatamente no tipo de Feijão que os maiores compradores realmente disputam.
A partir de agora, o histórico mostra que o grande varejo tende a reagir para frear novos repasses. Não necessariamente porque há sobra de produto, mas porque o consumidor já sente o preço na gôndola e o varejo tenta proteger margem, fluxo e imagem. Sobretudo, é de domínio público que haverá início da colheita da terceira safra, e essa informação poderá ser mais baixista do que a própria entrada do Feijão.
As três estratégias mais prováveis são claras
A primeira é voltar a comprar apenas o necessário, no modelo just in time. Com isso, o varejo evita formar estoque caro e empurra para a indústria o custo de carregar mercadoria. O empacotador, por sua vez, passa a trabalhar com mais pressão e menos fôlego para sustentar preços.
A segunda é mexer no mix da prateleira. Marcas premium, com Feijão nota 9, podem perder espaço temporariamente para marcas próprias, econômicas ou produtos de nota 7 e 8. O consumidor continua comprando Feijão, mas o varejo tenta oferecer opções de menor impacto no preço final, inclusive o Feijão-preto.
A terceira é usar a colheita do Paraná como argumento comercial. Regiões como Castro e o Sudoeste do Paraná ainda estarão colhendo. Claro que haverá Feijões extremamente danificados, mas essas regiões passam a ser observadas de perto, porque onde há colheita também há produtor precisando girar caixa, secador cheio e comprador tentando transformar urgência em desconto.
No Feijão-preto, o Sul do Paraná foi o grande destaque do mês. Após as perdas provocadas pelas geadas, a valorização foi expressiva, estimada entre 24% e 26%. É uma reação que confirma o tamanho do impacto climático e mostra que o mercado de Feijão-preto entrou em uma dinâmica própria, menos dependente do carioca e mais sensível à oferta regional.
O ponto central é este: o mercado não acabou, mas mudou de fase. Em maio, o produtor teve força. Agora, o varejo entra tentando reorganizar o tabuleiro.
O que fazer? Para os produtores de Feijão-carioca, não há muita opção: é vender rapidamente. Checar se a oferta está próxima da realidade daquele momento e vender. Já para o Feijão-preto, muita calma agora. Neste momento, se valer o histórico, com a entrada de Feijão importado, os empacotadores estão estocados e tratando de vender o estoque que formaram antes da alta do Feijão-preto.
Então, se for vender, saiba que os compradores estarão com pouco apetite para compras. Muito provavelmente você venderá abaixo das cotações de maio. Mas isso será temporário. Novas ondas de compradores irão acontecer e lembre-se: a próxima safra está muito longe. Se o governo, em momento eleitoral, tiver mais alguma ideia para colocar recursos no bolso da população, os alimentos serão os mais procurados.
Para o empacotador, todo cuidado é pouco. Não é hora de ter estoque de Feijão-carioca de forma alguma. Ao mesmo tempo, fique atento: o varejo vai testar preços cada vez menores. Sua função é estar ligado à necessidade do produtor e vender somente depois de comprar.
Já o Feijão-preto poderá dar algum susto durante junho, mas sem maiores efeitos no médio prazo. Lembre-se: o Feijão-preto deverá ser muito mais estável de agora em diante, porém com viés de alta. Preste atenção ao câmbio. Se houver forte saída de dólares do Brasil, o real pode responder com menor poder de compra, o que tornará a importação mais cara.
