Além de alimento essencial na mesa dos brasileiros, o Feijão começa a ganhar destaque em um novo modelo produtivo que vem avançando no país: a Agricultura Tropical Regenerativa (ATR). A proposta desse sistema é produzir alimentos ao mesmo tempo em que recupera a fertilidade dos solos, fortalece processos biológicos naturais e reduz a dependência de insumos externos.
Dentro desse contexto, especialistas apontam que o Feijão reúne características agronômicas que o tornam especialmente compatível com os princípios regenerativos, principalmente quando inserido em sistemas diversificados com rotação de culturas, plantas de cobertura e manejo biológico do solo.
Por fazer parte do grupo das Pulses — categoria que inclui leguminosas secas como feijões, lentilhas e grão-de-bico — a cultura apresenta capacidade natural de associação com microrganismos fixadores de nitrogênio, contribuindo para a nutrição do solo e ajudando a reduzir a necessidade de fertilizantes nitrogenados sintéticos.
De acordo com Dalmer Maffei, especialista em Agricultura Regenerativa e integrante da empresa Terra Preservada, compreender os processos biológicos do solo é essencial para o avanço desse modelo produtivo nos ambientes tropicais.
“A Agricultura Tropical Regenerativa é, antes de tudo, uma agricultura de processos. Não basta aplicar práticas isoladas como plantio direto ou cobertura do solo. É preciso entender o funcionamento do sistema como um todo e ativar seus ciclos biológicos”, afirma.
Dentro desse cenário surge também o conceito de “Feijão Regenerativo”. O termo não se refere a uma variedade específica da cultura, mas sim ao sistema em que ela é produzida.
Na prática, trata-se de um Feijão cultivado em um modelo agrícola que favorece a reconstrução da fertilidade natural do solo, estimula a atividade biológica e promove maior ciclagem de nutrientes.
Entre as estratégias utilizadas estão a diversidade de plantas de serviço, adubação verde, menor revolvimento do solo, uso de insumos biológicos e aplicação de remineralizadores — materiais minerais naturais que ajudam a reintroduzir nutrientes e estimular processos naturais de formação do solo.
Segundo Marcelo Eduardo Lüders, presidente do BRAFE, o avanço da Agricultura Tropical Regenerativa abre uma nova perspectiva estratégica para a cultura no país. “O Feijão sempre foi um alimento central na segurança alimentar do Brasil. Agora ele também pode ganhar protagonismo dentro de sistemas produtivos mais resilientes, que valorizam o funcionamento biológico do solo e reduzem a dependência de insumos externos.” Disse.
Ainda de acordo com ele, Isso cria uma oportunidade importante para fortalecer tanto a produção quanto a qualidade do alimento que chega à mesa dos brasileiros. “ O Feijão regenerativo será um alimento que abrirá portas em mercados da Ásia e Europa, agregando uma narrativa que justifica um prêmio no valor final”, destaca o presidente do IBRAFE.
Esses conceitos também vêm sendo difundidos no Brasil pelo Grupo Associado de Agricultores Sustentáveis (GAAS), entidade que reúne produtores e especialistas voltados à transformação dos sistemas produtivos por meio de práticas regenerativas.
Outro aspecto relevante está na qualidade dos alimentos. Solos mais equilibrados e biologicamente ativos tendem a produzir grãos com maior densidade nutricional, fator que pode agregar valor ao produto final.
Na Agricultura Tropical Regenerativa, fertilizantes sintéticos e defensivos agrícolas não são necessariamente eliminados, mas passam a ser utilizados de forma estratégica, conforme a necessidade do sistema.
“A mudança está no papel desses insumos. Eles deixam de ser a base do modelo produtivo e passam a integrar um conjunto de ferramentas de manejo”, explica Maffei.
Outro impacto importante desse modelo está na redução da dependência de insumos importados, muitos deles sensíveis às oscilações cambiais.
Com maior autonomia produtiva e possibilidade de produzir parte dos insumos na própria fazenda ou regionalmente, o agricultor ganha previsibilidade econômica e fortalece a sustentabilidade do sistema.
Em um país com clima favorável, alta biodiversidade e experiência consolidada em práticas como plantio direto e uso de biológicos, o Brasil reúne condições especialmente favoráveis para o avanço da Agricultura Tropical Regenerativa.
Nesse cenário, o Feijão — alimento tradicional da dieta brasileira — pode assumir também um novo papel: o de símbolo de uma agricultura capaz de produzir e regenerar ao mesmo tempo.