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É Realmente Importante Fazer a Calagem?
21.09.2022

Por: Fernanda Chemim, Eng.ª Agrônoma, IBRAFE      

O nitrogênio é o maior causador de acidificação dos nossos solos. Depois de um tempo tendo feito a calagem o solo vai se acidificar novamente porque tem deposição de resíduos orgânicos na superfície e uso de adubos nitrogenados, que quando maior a frequência e dose de aplicação mais acidifica o solo, diminui o pH e com isso disponibiliza o Al (Alumínio), aumentando a necessidade de calagem. Inclusive, dados observacionais mostram que o produtor de Feijão tem usado adubo nitrogenado muito além do necessário. Que consequências isso traz?

A calagem é a prática que mais aumenta a eficiência do uso de fertilizantes, pois na hora em que se neutraliza o alumínio, por exemplo, naturalmente já se aumenta o P (fósforo) disponível. Assim, a economia que podemos fazer no uso de fertilizantes e o aumento da eficiência da adubação por meio de solos corrigidos é tremendo, mas dados do Brasil mostram que consumimos muito pouco e/ou não caprichamos na aplicação. Desta forma, é importante pensar se vale a pena economizar no calcário. O calcário é caro? Mas e o fertilizante?

Historicamente em 20 anos, o consumo de adubo nitrogenado foi de 5 milhões de t/ano. Se considerássemos sendo apenas de fonte de ureia precisar-se-iam de 18-20 milhões de t de calcário/ano só para neutralizar a acidificação causada pela adubação nitrogenada. Para o sulfato de amônio são 7 kg de calcário para cada kg de N aplicado, para ureia são 3,6 kg calcário para cada ponto de N aplicado. Ou seja, estamos aplicando algo em torno de 20 milhões t de calcário só pra neutralizar a acidificação gerada pela adubação nitrogenada, e estamos consumindo cerca de 40 milhões de t/ano.  Estamos usando esses 20 milhões t/ano para neutralizar a acidez de 65 milhões de hectares, que dá uma média de 300 kg por h/ano. Vamos corrigir a acidez nos solos dessa forma?  Muitos não estão adotando praticas adequadas de dose e frequência de aplicação.

A discussão da acidez é indiscutível, relembrando que aumenta indisponibilidade de N, P, Ca, Mg, S e Mo e promove a insolubilização do Al e Mn, que são tóxicos em excesso, além de estimular a atividade microbiana e assim favorecer o crescimento das raízes. Ou seja, a calagem ajuda a melhorar o perfil do solo, se aplicada corretamente.

A correção do solo interfere também na quantidade de palhada disponível, pois se aumenta a produtividade, aumenta mais a parte aérea, colhe-se mais grão, e assim deixa mais resíduo orgânico, aumentando a palhada disponível. Em estudos de 15 anos mostram que áreas corrigidas aportaram 169 t de resíduos contra 125 t sem calagem. Ou seja, 3 t/ha a mais por ano só de resíduo. Com isso, essa palhada que contém carbono, também aportou 1,2 t carbono/ano no solo. Dois super benefícios para o perfil do solo só corrigindo melhor a acidez, melhorando assim a CTC do solo e o potencial de fertilidade do solo.

 

Então, para melhorar a eficiência na aplicação do calcário, preste atenção nestes pontos:

– Aplicação no mínimo 3 meses antes da semeadura;

– Metade antes da aração (aiveca)/ Metade após a aração incorporando com gradagem. Com as duas formas permite uma melhor eficiência, pois só gradagem não é suficiente. Evitar incorporação apenas superficial;

– O cálculo da dose vai depender da profundidade do solo em que irá aplicar.

O agricultor tem apenas usado gradagem e ainda não bem feita, o que dali três anos faz com que o sistema já não esteja novamente muito bem, o solo já não é mais eficiente e a única coisa que se faz é mexer no solo com subsolador e escarificação, prática que só faz perder carbono do solo. Quanto mais se mexe no solo mais se perde carbono e é aí que o sistema não evolui.

É preferível dividir as áreas e fazer uma por ano, mas caprichar na implantação, pois essa é uma etapa importantíssima se o agricultor quer ter sucesso na sua lavoura e a ideia é não revolver mais depois, só o mínimo e quando restritamente necessário.

Pois é o Ca (Cálcio) que faz a ponte de ligação entre a molécula de argila e o carbono, segurando o carbono. Mas ao mexer no solo desnecessariamente, passando uma grade niveladora, por exemplo, se rompe a estrutura do macro agregado onde está o carbono e ele oxida. Para se ter uma ideia, com o uso de uma niveladora, em 15 dias se perde 1 t de carbono/ha da camada de 0-5cm. Em 15 dias se perdeu o que levou aproximadamente um ano para se incorporar. Por isso enfatizamos que é preciso caprichar na implantação para não mexer mais depois ou o mínimo possível.

Quando o sistema já está estabelecido?

Há ainda hoje muitas controvérsias a respeito de estimativas de dose de calcário em superfície em áreas de SPD (Sistema de Plantio Direto).

É preciso acertar na dose, mas também na frequência para que tenha efeito nas camadas superficiais e mais profundas, e com isso amplie o potencial da calagem aliado ao retorno econômico. Alguns estudos mostram que a ação se limita apenas a camada 0-10 cm até que chegue no seu máximo potencial na primeira camada para que depois comece a agir nas camadas de baixo, e isso pode ser alcançado em cerca de 2 anos e meio.

Mas é importante não estipular a frequência em função do tempo, pois ele é vaiável em relação a composição química do solo, a adubação nitrogenada, quanto de N (Nitrogênio) entrou no sistema, qual o tipo de palhada, o tipo de solo, a capacidade de tamponamento deste solo, como foi a forma do sistema de rotação, quanto choveu e assim por diante. Assim, é imprescindível para o sucesso que a dose e a frequência sejam definidas em função de análise de solo.

Aplicação de calcário em superfície:

– Considerar a profundidade de 0-20 cm ao invés de 10 cm para a amostragem do solo;

– Calcular a dose de calcário pelo método de elevação da saturação por bases (V) para 70%, a taxa que dá o melhor resultado na lavoura aliado ao retorno econômico em médio e longo prazo.

A dose calculada pode ser aplicada de uma vez só ou em até 3 anos, quando for o caso de não ter caixa suficiente, porque a ação é lenta. Mas é importante que seja aplicada ao total a dose calculada. Antes de dois anos o carbonato não vai agir e vai alcançar a máxima em cerca de 2-3 anos, portanto monitorar a camada 0-10 cm, onde se acidifica mais rápido. Assim:

 

Quando V ≥ 60% na camada 0-10 cm, não se preocupe em aplicar mais calcário pois o solo está bem corrigido;

Quando menor, significa que está acidificando de novo e só então fica economicamente viável fazer uma nova aplicação.

Com estas práticas, o produtor no SPD gerará mais lucro.

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