Enquanto os produtores brasileiros acompanham as oscilações de preços e a chegada de uma maior oferta em agosto, o Reino Unido mobiliza supermercados, restaurantes, indústrias e empresas de alimentação coletiva para dobrar o consumo de Feijões até 2028. A experiência mostra que o Brasil também precisa transformar o incentivo ao consumo em uma estratégia coletiva, pública e mensurável.
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Os preços do Feijão-carioca encerraram a sexta-feira, 24 de julho, sem um movimento único entre as regiões acompanhadas pelo CEPEA. Houve quedas em algumas praças, estabilidade em outras e valorizações pontuais.
Nos Feijões de melhor padrão, peneira 12 e notas 9 ou superiores, os valores ficaram entre R$ 274,18 e R$ 305,71 por saca de 60 quilos.
O Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba registrou R$ 305,71, com alta diária de 1,67%. O Centro/Noroeste Goiano caiu 1,69%, encerrando o dia em R$ 288,24.
No Feijão-carioca notas 8 e 8,5, as referências ficaram entre R$ 261,00 e R$ 279,09. O Feijão-preto Tipo 1 permaneceu pressionado, com referências entre R$ 205 e R$ 209.
O fechamento confirma uma característica importante deste momento: não existe apenas "o preço do Feijão".
Qualidade, cor, peneira, localização, quantidade disponível e necessidade imediata do comprador fazem uma diferença cada vez maior.
Os melhores lotes ainda conseguem se aproximar ou superar os R$ 300, mas não em todas as regiões. Já os Feijões intermediários permanecem em outro patamar.
Quanto tempo o produtor e o mercado dedicam à discussão sobre para quem vender e por qual preço? E quanto investimos em conversar sobre como aumentar o consumo?
A oferta deverá continuar aumentando durante agosto. Ainda assim, a movimentação da última semana mostrou que existe demanda quando compradores e vendedores encontram um patamar possível.
Foi o tamanho atual do consumo que fez com que os compradores fossem ao campo e ainda pagassem valores próximos de R$ 300 pelos melhores lotes.
O Feijão colhido encontrou destino, embora com maior seletividade.
O REINO UNIDO QUER DOBRAR O CONSUMO. E NÓS?
Enquanto acompanhamos, diariamente, oscilações de alguns reais por saca, uma iniciativa internacional mostra que precisamos ampliar a discussão.
O Reino Unido, preocupado com a deterioração da saúde de sua população, lançou uma campanha nacional para dobrar o consumo de Feijões até 2028.
A mobilização, chamada Bang in Some Beans — algo como "coloque alguns Feijões aí" — reúne supermercados, indústrias, restaurantes, distribuidores e empresas de alimentação coletiva.
Mais de 40 empresas já assumiram compromissos. Algumas estabeleceram metas de aumentar entre 15% e 30% as vendas ou a utilização de Feijões em produtos e cardápios.
O aspecto mais relevante não é a publicidade.
É a transformação do consumo em uma meta coletiva, pública e mensurável.
O guia criado pela campanha recomenda ampliar a exposição dos Feijões, colocá-los próximos aos demais ingredientes das refeições, criar combos, desenvolver opções práticas, apresentar receitas e realizar ações envolvendo diferentes categorias de alimentos.
O diagnóstico é direto: o Feijão muitas vezes fica invisível dentro das lojas.
Está presente, mas isolado em uma prateleira, sem conexão com a refeição que o consumidor pretende preparar.
O consumidor não compra apenas um pacote. Ele compra a solução para uma refeição.
UMA MISSÃO PARA O VIVA FEIJÃO
No Brasil, o desafio é diferente.
Não precisamos criar do zero o hábito de consumir Feijão. Precisamos proteger esse hábito, recuperar a frequência de consumo e criar novas ocasiões para que ele esteja presente à mesa.
O Viva Feijão pode mobilizar produtores, empacotadores, supermercados, atacadistas, restaurantes, cozinhas industriais, escolas, hospitais, nutricionistas, chefs, indústrias e meios de comunicação.
Cada participante poderia assumir um compromisso objetivo.
Supermercados poderiam ampliar a exposição dos produtos e fortalecer as campanhas.
Restaurantes poderiam aumentar a presença de Feijões nos cardápios.
Empresas de alimentação coletiva poderiam estabelecer metas de utilização.
Empacotadores poderiam investir em receitas, conveniência e informação.
A indústria poderia desenvolver mais opções, como pacotes de 500 gramas, snacks, embalagens prontas para consumo e produtos refrigerados ou congelados.
Escolas poderiam trabalhar a educação alimentar. Chefs e influenciadores poderiam apresentar o Feijão em saladas, sopas, lanches, bowls e refeições rápidas.
O arroz com Feijão deve continuar protegido. Mas o Feijão precisa ocupar mais momentos do dia.
O ECOSSISTEMA DOS ALIMENTOS BÁSICOS
O consumidor não pensa em cadeias produtivas separadas. Ele pensa no prato.
Por isso, uma mobilização brasileira precisa reunir todo o ecossistema dos alimentos básicos.
O Feijão pode ser o protagonista, mas deve estar conectado ao arroz, aos ovos, às carnes, às hortaliças, às raízes, aos temperos e à comida de verdade.
Para o supermercado, isso representa aumentar a venda de uma cesta completa.
Para o restaurante, significa oferecer uma refeição nutritiva e acessível.
Para a indústria, abre espaço para inovação.
Para o produtor, pode representar uma demanda mais consistente.
Consumo também é assunto do produtor.
Uma campanha não muda o preço da próxima semana. Seria irresponsável criar essa expectativa.
Mas uma mobilização permanente pode melhorar a estrutura do mercado nos próximos anos, ampliando a presença do Feijão na alimentação fora do lar, no varejo e entre as novas gerações.
Não podemos discutir apenas como conter a oferta quando os preços caem.
Precisamos trabalhar a demanda antes que as crises aconteçam.
Uma meta possível seria recuperar uma porção adicional de Feijão por pessoa a cada semana.
Cada empresa ou instituição definiria sua contribuição, com compromissos públicos e resultados acompanhados.
O Pulse Day, o Fórum do Feijão e outras iniciativas do IBRAFE poderiam apresentar os resultados, reconhecer os participantes e compartilhar práticas que efetivamente aumentaram o consumo.
Nesta semana, também publicarei reflexões sobre esse tema em alguns sites de opinião.
Precisamos levar essa discussão para fora do setor e mostrar que defender o Feijão não é apenas defender uma cadeia produtiva.
É defender a saúde, a segurança alimentar, a renda no campo e a permanência da comida de verdade no prato do brasileiro.
O Reino Unido decidiu organizar uma revolução do Feijão.
O Brasil não pode esperar que a tradição faça, sozinha, o trabalho que exige estratégia, investimento e mobilização.
