A intensificação das negociações de acordos comerciais internacionais envolvendo Pulses tem acendido um alerta sobre o futuro das variedades tradicionais consumidas na Índia. Embora a importação de produtos padronizados — como Ervilha Amarela do Canadá e da Austrália — atenda à demanda crescente do mercado, especialistas apontam que o consumo indiano é historicamente sustentado por uma ampla diversidade regional de Pulses, com variedades e preparos específicos em cada estado.
Com o avanço das grandes redes de supermercados, a retração da produção local e a preferência crescente por poucas commodities agrícolas, muitas dessas variedades tradicionais correm o risco de desaparecer. Diante desse cenário, cresce o movimento entre consumidores, produtores e o setor gastronômico para valorizar e preservar a riqueza cultural e alimentar associada às Pulses indianas.
Acordos globais podem marginalizar variedades locais
No mercado de Mapusa, em Goa, ainda é possível encontrar pequenas produtoras vendendo um tipo de Feijão-Branco conhecido como merule. Maior que o Feijão-Mungo, mas menor que a Ervilha, o grão mantém sua forma após o cozimento, ao mesmo tempo em que apresenta textura macia e cremosa — ideal para sopas ou preparos simples.
Ainda não há consenso sobre sua classificação: pode ser uma Pulse específica ou uma variedade do Feijão-Fradinho (Vigna unguiculata), bem adaptado ao clima quente da região. No norte da Índia, o Feijão-Fradinho é conhecido como Lobia, caracterizado pela mancha escura que lhe confere o nome de Feijão-de-Olho-Preto. Popular no Punjab, é na costa oeste que esse grão ganha destaque, com nomes como Alsande ou Chawli, variando em tons do creme ao marrom-avermelhado. Ele compõe pratos regionais como o Olan de Kerala, preparado com Abóbora-d’Água e Leite de Coco.
Esse cenário exemplifica a diversidade de Pulses consumidas no país. No entanto, recentes negociações comerciais entre Índia e Estados Unidos, somadas às incertezas tarifárias globais, colocam em risco essa pluralidade. Ainda que importações já ocorram — principalmente de Ervilha Amarela —, há pouca consideração, nesses acordos, sobre o fato de que o consumo indiano não se baseia em uma commodity padronizada, mas em uma vasta variedade de grãos com identidade cultural própria.
Diversidade regional em risco
O consumo de Pulses na Índia varia significativamente por região. Bengala privilegia o Feijão-Mungo, a Lentilha Vermelha e o Grão-de-Bico; Tamil Nadu tem preferência pela Lentilha Amarela e Lentilhas Partidas; o Feijão-Rajma domina as regiões montanhosas do norte, com inúmeras variedades locais; já o Punjab é reconhecido pelo consumo de Grão-de-Bico, Lentilha Preta e Lentilha Amarela.
Além disso, há especialidades regionais como o Feijão-Vaal, amplamente consumido em Gujarat, e o Grão-de-Bico-Cavalo, típico de Karnataka. No entanto, a redução do vínculo direto entre produtores e consumidores — antes sustentado por cadeias curtas de abastecimento — tem impactado esse sistema. A urbanização acelerada levou ao abandono de práticas tradicionais, como o armazenamento doméstico anual, substituído por compras pontuais em supermercados.
Esses estabelecimentos, por sua vez, tendem a priorizar poucos tipos de Pulses, muitas vezes incentivados por descontos e padronização logística. Como consequência, agricultores enfrentam queda na demanda por variedades locais e, diante de políticas públicas que favorecem outras culturas comerciais, acabam abandonando o cultivo dessas Pulses tradicionais.
Consciência e valorização como caminho
Apesar do cenário desafiador, ainda há espaço para resistência. O próprio merule, por exemplo, é vendido a preços premium em mercados locais, indicando que parte dos consumidores reconhece seu valor. Iniciativas regionais também têm surgido para promover e comercializar Pulses tradicionais por meio de plataformas digitais.
No entanto, especialistas apontam que a preservação dessas variedades depende diretamente do aumento da conscientização sobre seu uso e importância. A ausência dessas Pulses nos cardápios de restaurantes, muitas vezes substituídas por versões mais padronizadas ou altamente processadas, evidencia a necessidade de uma mudança cultural.
Enquanto pratos sofisticados ganham destaque, preparos simples — onde o sabor natural do grão é valorizado — permanecem à margem. O desafio, portanto, não está apenas na produção, mas também na valorização gastronômica e cultural dessas Pulses.
Diante disso, a responsabilidade recai sobre consumidores, produtores e toda a cadeia alimentar, que precisam atuar de forma conjunta para preservar a diversidade e a identidade das Pulses na Índia.
Reportagem original publicada por The Economic Times Disponível em: https://economictimes.indiatimes.com/magazines/panache/global-deals-for-pulses-could-marginalise-indian-varieties/articleshow/128904702.cms