O Zimbábue avança na estruturação do mercado de gergelim, com regras formais de produção e comercialização que já movimentaram mais de US$ 1 milhão em vendas. A China sinalizou interesse em importar sementes do país, o que pode ampliar a renda dos agricultores e gerar divisas. Com 15,6 mil toneladas produzidas na safra 2025/2026, o gergelim ganha espaço como cultura estratégica de exportação.
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O mercado de gergelim no Zimbábue vive um momento de fortalecimento. Com a comercialização da safra atual ganhando ritmo, produtores do país já faturaram mais de US$ 1 milhão com a venda da cultura, enquanto novas oportunidades de exportação começam a se abrir, especialmente com o interesse da China em importar sementes zimbabuanas.
De acordo com a Autoridade de Marketing Agrícola do Zimbábue, a AMA, os agricultores venderam 1,4 milhão de quilos de gergelim, avaliados em aproximadamente US$ 1,2 milhão. O resultado reflete a movimentação constante do setor e o avanço de um sistema de comercialização mais organizado, criado para dar maior segurança aos produtores, compradores, processadores e exportadores.
A autoridade introduziu uma circular regulamentar para reger a produção e o comércio de gergelim no país. A medida exige que contratantes, comerciantes, processadores e produtores atuem por meio de acordos formais e sistemas de registro, com o objetivo de reduzir informalidades, ampliar a transparência e garantir maior equilíbrio nas relações comerciais.
Pelas novas regras, todos os prestadores de serviços ligados ao cultivo de gergelim devem assinar memorandos de entendimento com a AMA no início de cada safra e cadastrar os agricultores em um sistema centralizado. Também é obrigatória a apresentação de contratos válidos, com especificação da área cultivada, distribuição de insumos, prazos e procedimentos estabelecidos.
A AMA informou ainda que ações de fiscalização estão sendo implementadas em parceria com agências de segurança e conselhos locais, como forma de apoiar a participação justa no mercado e combater práticas irregulares.
Comercialização formal ganha força
A atividade recente indica absorção constante do gergelim produzido no país, com múltiplas compras em grande escala registradas dentro do sistema regulamentado. O desempenho das exportações e a demanda internacional crescente, impulsionada pelas indústrias alimentícia, cosmética e de produtos à base de plantas, continuam sustentando o interesse pela cultura.
Autoridades locais indicam que a produção de gergelim do Zimbábue se expandiu de forma significativa nos últimos anos, apoiada pelo aumento da área cultivada e por uma presença mais expressiva nos mercados globais. Na safra 2025/2026, a produção nacional de sementes de gergelim foi estimada em 15.600 toneladas métricas, cultivadas em 29.252 hectares.
A província de Mashonaland Central lidera a área plantada, com 14.328 hectares. Em seguida aparecem Masvingo, com 9.965 hectares, e Manicaland, com 4.441 hectares. Nesta última, distritos como Chipinge, Chimanimani e Buhera vêm se destacando pela rápida adoção do gergelim entre pequenos agricultores, que enxergam na cultura uma alternativa lucrativa de diversificação da renda rural.
Apesar do avanço, o setor ainda enfrenta desafios importantes. A ausência histórica de estruturas coordenadas de comercialização deixou muitos produtores vulneráveis a contratos clandestinos com comerciantes moçambicanos. Esses intermediários atravessam a fronteira, compram o gergelim de forma informal e reexportam o produto para mercados asiáticos, enquanto os agricultores locais recebem apenas uma fração do valor potencial.
Para especialistas agrícolas, a formalização dos canais de venda e o fortalecimento das cooperativas serão fundamentais para que o Zimbábue consiga transformar o gergelim em uma cultura relevante de exportação, garantindo remuneração mais justa aos produtores e maior entrada de divisas estrangeiras para o país.
China sinaliza abertura de mercado
Nesse cenário, a China sinalizou disposição para importar sementes de gergelim do Zimbábue, um movimento que pode impulsionar a produção local, fortalecer a renda rural e ampliar a geração de divisas.
Durante visita recente à província de Manicaland, o embaixador chinês no Zimbábue, Zhou Ding, anunciou que seu país ampliou o acesso de produtos agrícolas zimbabuanos ao mercado chinês. Por meio de protocolos bilaterais de comércio, a China já importa tabaco, abacates, frutas cítricas, pimentas secas e nozes de macadâmia do Zimbábue. Agora, o gergelim passa a integrar essa lista de produtos com potencial de exportação.
“A partir de maio de 2026, a China implementou o tratamento de tarifa zero para todos os produtos importados de 53 países africanos, incluindo o Zimbábue. Essa política expandirá substancialmente o acesso dos produtos zimbabuanos ao vasto mercado chinês, promoverá o crescimento industrial local e criará mais empregos e oportunidades de renda para o Zimbábue”, afirmou o embaixador.
Segundo Zhou Ding, a medida representa uma oportunidade especialmente relevante para agricultores e fabricantes de Manicaland. O embaixador destacou que a região é uma importante base de produção agrícola, com destaque para tabaco, abacates, frutas cítricas e nozes de macadâmia.
A China já é a maior compradora de tabaco e nozes de macadâmia do Zimbábue. No ano passado, quase metade da produção zimbabuana de tabaco foi exportada para o mercado chinês, em negócios avaliados em US$ 800 milhões. O país asiático também importou mais de 5.000 toneladas de nozes de macadâmia, no valor de US$ 12 milhões. Frutas cítricas, mirtilos e pimentas secas do Zimbábue também já conquistaram espaço entre os consumidores chineses.
“Espera-se que as sementes de gergelim de Manicaland também sejam exportadas para a China em breve. O vasto mercado chinês está trazendo maiores perspectivas de renda para os agricultores de Manicaland e de todo o Zimbábue”, completou Zhou.
Cooperação agrícola e diversificação produtiva
Além da abertura comercial, a China também tem ampliado ações de cooperação técnica com o Zimbábue. De acordo com o embaixador, o governo chinês colaborou com o país africano na introdução de uma espécie de grama utilizada no cultivo de cogumelos e na produção de ração animal. Especialistas agrícolas chineses também criaram centros de demonstração para treinar agricultores locais em boas práticas agronômicas.
Entre as iniciativas está o Projeto de Assistência Técnica Juncao, que introduziu uma gramínea de rápido crescimento e alto rendimento, capaz de ser utilizada no cultivo de cogumelos comestíveis, na produção de ração animal rica em proteínas e na recuperação ambiental.
A equipe agrícola chinesa também estabeleceu Vilas de Demonstração de Cooperação Agrícola, oferecendo treinamento prático em cultivo de lavouras, horticultura, avicultura e gestão de irrigação. Além disso, a China informou que trabalha em parceria com agências da ONU para promover o manejo sustentável do solo e o planejamento de recursos hídricos no Zimbábue, com foco em comunidades rurais afetadas por secas recorrentes.
Outra medida anunciada foi a modernização de nove sistemas de irrigação, com financiamento de doações chinesas, prevista para ser concluída até o fim deste ano.
Gergelim ganha espaço como cultura estratégica
A combinação entre mercado estruturado, fiscalização, organização produtiva e abertura de novos destinos de exportação pode reposicionar o gergelim dentro da agricultura zimbabuana. A cultura, antes marcada por canais informais e forte presença de intermediários, passa a ser vista como alternativa estratégica para pequenos produtores e como fonte relevante de divisas para o país.
Com demanda internacional em expansão e interesse crescente de grandes compradores, especialmente da Ásia, o Zimbábue busca transformar o avanço da produção em ganhos concretos para os agricultores. Para isso, a formalização dos contratos, o registro dos produtores, a organização das cooperativas e a transparência na comercialização serão decisivos.
O desempenho recente, com 1,4 milhão de quilos vendidos e receita superior a US$ 1 milhão, mostra que o setor já começa a responder à estruturação do mercado. Com a possível entrada efetiva da China como compradora de sementes de gergelim, o país poderá ampliar ainda mais sua participação no comércio internacional da cultura, desde que consiga garantir escala, qualidade, rastreabilidade e remuneração justa ao produtor.
Reportagens originais publicadas por The Manica Post
E TV Brics
Disponível em https://tvbrics.com/en/news/zimbabwe-strengthens-structured-sesame-marketing-as-farmers-earn-over-us-1-million/