É impossível ver Feijão sendo negociado a R$ 450 por saca e não lembrar de julho de 2016. Naquele mês, a média do Feijão-carioca chegou a R$ 403,55. Foi um daqueles momentos que ficam gravados na memória do mercado.
Agora, não é improvável que tenhamos um novo recorde nominal em reais. Dependendo do comportamento das próximas semanas, a média do Feijão-carioca pode, sim, superar aquele patamar. Mas há uma diferença importante: em dólar, a história é outra.
Em julho de 2016, o preço médio chegou ao equivalente a US$ 199,63 por saca. Neste ano, mesmo com o Feijão podendo trabalhar em torno de R$ 450, isso representaria algo próximo de US$ 90. Ou seja, o recorde em reais pode vir. O recorde em dólar está longe.
Esse detalhe é essencial porque mostra que o mercado está caro para o consumidor brasileiro, mas não necessariamente extraordinário quando olhado em moeda internacional. Para o produtor, o preço chama atenção. Para o empacotador, aperta a margem. Para o consumidor, pesa no prato. Para o mercado, acende uma luz amarela.
Preço recorde é o tipo de situação que traz alegria para meia dúzia e prejuízo para muitos. Quando o Feijão sobe demais, o plantio seguinte aumenta forte. Depois, o mercado leva tempo para reencontrar equilíbrio. A história do Feijão-carioca sempre cobra caro de quem confunde preço extremo com preço permanente.
Ainda assim, para quem acompanha o mercado de perto, todos os anos aparece uma janela de oportunidade. Há momentos em que o preço cai bastante no pico da colheita da terceira safra. Esse ponto varia conforme o ritmo de plantio, o volume real da segunda safra, os estoques disponíveis e a disposição do produtor para vender ou armazenar.
Este ano, porém, há um componente diferente: vamos chegar ao início da colheita do irrigado praticamente sem estoque. Literalmente, sem a gordura que em outros anos ajudava a amortecer o mercado.
Isso não significa que o preço vai ficar alto para sempre. Significa que a transição até a entrada do irrigado será muito sensível. Quem estiver com produto na mão precisa entender que ainda há espaço de negociação, mas também precisa lembrar que, quando o mercado começa a baixar, ele não costuma pedir licença.
Neste momento, ainda há vendedores conseguindo até R$ 400 por Feijão remanescente do ano passado. Em alguns casos, o ganho ultrapassa 100%. É raro, mas mostra que, em determinados ciclos, não se sujeitar a preços abaixo de R$ 250 ou R$ 300 pode fazer enorme diferença para quem tem estrutura, caixa e capacidade de armazenar bem.
Mas este é justamente o ponto: nem todos têm essa condição.
A situação econômica do produtor brasileiro não permite que muita gente consiga usar o armazenamento como estratégia sofisticada de mercado. Muitos precisam vender para fazer caixa, pagar conta, renovar custeio e seguir plantando. Por isso, o mercado de Feijão-carioca não pode ser lido apenas pela ótica de quem conseguiu segurar produto e agora realiza um ganho extraordinário.
Especula-se que produtores do Vale do Araguaia possam reajustar o valor mínimo a partir do qual decidirão armazenar. No ano passado, esse número ficou abaixo de R$ 230 por saca. Com custos mais altos, juros pesados e maior consciência de risco, é possível que esse piso psicológico mude.
Vamos observar com atenção. O produtor irrigado entra em um mercado muito diferente do de anos anteriores. Entra com o comprador pressionado, o estoque curto, o consumidor sentindo preço e o mercado tentando descobrir até onde vai a paciência de cada elo da cadeia.
Para o profissional do Feijão, a recomendação é clara: não trate R$ 450 como normalidade, nem descarte que o mercado ainda possa testar patamares muito altos antes da virada. O ganho está na leitura fina do momento, não na torcida.
O Feijão está caro. O mercado está tenso. A oportunidade existe. Mas a armadilha também.
